Um texto que achei no celular do meu filho.
Giz
Desde que nasci, há uma parede negra na minha frente; embora nunca efetivamente tenha me atentado a ela enquanto criança. Não me fazia mal algum.
Mas um dia enjoei de contemplar o negrume e passei bom tempo a avaliar a minha volta, onde as paredes se estendiam num corredor comprido, nos quais outros miravam suas próprias paredes.
Mas eles viam além do preto à frente, encaravam seus desenhos; que somente eles viam significado — feitos com giz.
Enquanto eu os admirava encarando suas paredes, surpreendia-me com suas expressões felizes, tristes, deslumbrantes, irritadas, indescritíveis e inenarráveis.
E senti graça ao pensar que num mundo incolor, tudo que tínhamos para pintá-lo era um giz. Nosso giz.
E senti-me triste por estar num mundo assim, pois não vi significado neste e queria ir para um diferente deste, mas não achei saída.
Então conclui que a única saída fosse a morte, pois a coisa que cada um tem em comum, exceto tudo, é a morte.
E ninguém sabe com certeza o que há depois dela, nem se há algo depois. Alguns dizem ser um lugar melhor, outros dizem que um pior.
Mas eu queria ir, fosse para algum lugar ou lugar nenhum, só queria sair daqui. Pois, é um fato que todos morrem, então o que há de mais em apressar a ocasião?
Então eu quis me matar.
Porque, além das paredes e o giz, as pessoas são a única coisa tangível nesse mundo — e eu não me dava bem com elas. Então de que adianta continuar num mundo onde não me daria bem com as únicas coisas tocáveis?
— Faça amigos e conquiste pessoas — disse meu pai. — Só assim aproveitará sua vida aqui.
— Use bem o seu giz para fazer coisas incríveis e assim você arranjará uma companhia para sua vida — disse minha mãe. — Só assim você estará completo.
E eu senti um líquido venenoso cair sobre meu coração e me entristecer, pois nunca fui de ter verdadeiros amigos, tão pouco de impressionar com o meu giz.
— Então devo lutar para ter muitos amigos? — perguntei.
— Sim! — disse meu pai. — Mas não se esforce demais ao fazer isso, ou parecerá forçado. As pessoas sentem pena quando forçamos as amizades.
— Não entendo — disse. — Como posso me esforçar sem parecer que estou me esforçando?
— Seja você mesmo — disse minha mãe. — Só assim para conseguir conquista-los.
— Mas eu não sei se devo ser eu mesmo ou não — concluí, dizendo-lhes. — Ser eu mesmo me incomoda. E sinto que ser eu mesmo incomoda algumas pessoas.
— Não é ao pé da letra — disse meu pai. — É para ser a melhor versão que você pode ser de si mesmo.
— Isso! — Se alegrou minha mãe.
— Mas não sei o que isso significa — disse honestamente. — Quando tento ser o melhor de mim mesmo sinto que minhas energias se descarregam mais rápido que o normal. Embora eu receba algumas palmadinhas nas costas e sorrisos alegres, é cansativo manter a máscara.
— Mas não é para ser uma máscara — disse meu pai. — É para ser você! Uma versão melhor de si. Como fazer exercícios para melhorar o corpo. Não é para fingir ser melhor, é para ser melhor.
— Isso, bebê — disse minha mãe. — Se você melhorar vai conseguir atrair as pessoas ao seu redor. Como um ímã!
— Mas eu não vejo porque tenho de melhorar — disse-lhes. — Não posso dizer que me sinto bem sendo quem sou, mas não sei se me sentiria bem melhorando por outra pessoa.
— Não seja egoísta! — disse meu pai. — Deixe as pessoas te ajudarem, para você ir longe na vida.
— Sim, amor — disse minha mãe. — Você tem de pensar nos outros também.
Ora, egoísta, eu?
Pensando bem, uma das inúmeras coisas que as pessoas à minha volta parecem ter é egoísmo. Até fazem caridade por puro egoísmo, como se por serem caridosos fossem receber algo em troca.
E o pior é que recebem, pois boas ações, por mais egoístas que sejam seus motivos, sempre são recompensadas.
Então fiquei muito triste por ser egoísta. Mas se todos são, por que eu seria diferente?
Fiquei triste, pois me esforçaria não por mim, mas pelos outros. Mas fiquei zangado por pensar isso também. Ora, não deveria ficar triste por isso.
Deveria?
E voltei a ficar triste, pois estava de fato sendo egoísta e pensando apenas em mim. E fiquei triste por estar triste.
E foi aí que quis ser ninguém, pois não poderia ficar triste. Mas pensar nisso me incomodou, porque, no fundo, sei que essa não é a saída que procuro.
A saída que procuro é uma real, não uma feita por giz ou ideias dos outros. É uma saída real!
E andando achei outro homem que me fez pensar o quão triste é melhorar, não por si, mas, para os outros.
Ele usava seu giz para fazer uma torre. Era muito bela, mas estava incompleta e alguns a sua volta riam dele.
— Por que riem de você? — perguntei.
— Porque não consegui terminar minha torre com meu giz — respondeu ele.
— E por que não?
— Não planejei direto antes de começar — disse. — O material acabou antes e agora que cheguei na metade, vejo que não vou conseguir finalizar.
— E o que eles tem a ver com isto? Não entendo o motivo de rirem.
— Ah! Não é óbvio? Sempre riem e maldigam daqueles que não terminam seus projetos. É como dizem: Você começa um projeto e não termina, por isso é um fracasso.
Mas eu não achava ele um fracasso por aquilo. Não poderia dizer que era bem-sucedido tão pouco, porém estava longe de fracassado.
— Tudo que fizeste foi um erro. Essas pessoas não deviam falar essas coisas maldosas e sim tentar lhe ajudar.
— Discordo. A culpa é unicamente minha por não ter planejado direito antes de começar o projeto. Então eles estão certos em querer zombar de mim.
— A culpa foi sua, mas isso não os dá direito de serem maldosos. Não era sua intenção que não desse certo.
— Mas é desleixo. Veja bem, as pessoas que começam e nunca terminam nada, não são bem vistas. Estão sempre pulando de galho em galho, sempre em cima dos muros. E pessoas assim, geralmente, não são boas pessoas.
Então refleti por um momento e fiquei infeliz.
Ora, nunca fizera nada na vida, nem mesmo usei meu giz para terminar um desenho que fosse.
Pessoas indecisas não eram bem vistas, então: O que achariam de mim se dissesse que estou atrás de algo intangível? Que estou atrás de uma saída que não parece existir?
Vi eles rirem para o homem da torre e por isso fiquei triste. Depois furioso, e disse:
— Mas as pessoas morrem e no fim vão todas para o mesmo lugar. Então porque eu deveria me importar com o que dizem a meu respeito?
— Vaidade — disse o homem, com simplicidade. — Todo mundo tem vaidade. Você não?
Então senti vontade de me matar mais uma vez.
Porque achei ter algum parafuso solto; pensamentos e mentalidade incorretos. Alguém fora do padrão.
Se eu estivesse fora dos padrões, que padrões seriam esses exatamente? Será que ao consertar minha mentalidade eu finalmente encontraria uma saída desse lugar?
Então quis me ajustar aos padrões, consertar minha cabeça. No entanto, onde acharia esses padrões?
Não foi difícil.
Uma gritaria ao longe chamava a atenção de todos. Era uma pessoa bem vestida em cima dum muro.
Sua gritaria atraiu uma plateia aos seus pés, pois o que ele falava era incrível. Fazia cócegas em nossos ouvidos, nos fazia sonhar, desejar; era como estar hipnotizado.
— Vocês devem ter o mindset correto! — disse o vitorioso. — Só assim para ter sucesso na vida!
— Para mim, sucesso na vida é sair daqui — disse.
— Ho! — Ele voltou sua atenção a mim. — Você não pode pensar assim. Tem que pensar da maneira correta, como um campeão! Um vencedor! Como nós! Olhe nossa vida, nossas conquistas!
— Por acaso a minha cabeça é como o motor de um carro, onde posso mexer nele a bel-prazer, e trocar essa tal peça que chamam mindset?
— Não é tão fácil assim, jovem rapaz — respondeu o homem-vitorioso. — Sua mudança é gradualmente, gradualmente você pensará como um vencedor. Como nós! Com esforço você chegará lá!
— Mas qual é o pensamento de um vencedor?
— É o que nós temos, é claro.
— Como pode ter certeza?
— Olhe nossa vida! Veja nossa felicidade, nosso sucesso, nossas fotos. Se funciona para nós, funciona para você.
— Mas vocês não são eu.
— Mas deveria ser!
— Por quê?
— Porque você não é muito melhor sendo você… ou é?
Era verdade, pensei: Ser eu não vem dando bons resultados. Então me entristeci.
Depois pensei: Não deveria ser igual a ninguém exceto a mim mesmo! E fiquei irritado.
E depois fiquei triste não ser feliz igual a eles, que nem pareciam ligar para o mundo negro e sem sentido a sua volta.
Mas isso era porque eles colocavam sentido em tudo. E achei muito idiota acharem significado em coisas sem significância. Mas ainda assim, eles estavam melhores que eu.
Por mais iludidos e vãos que fossem, sua ignorância os abençoava com a felicidade.
E pela terceira vez, senti vontade de me matar, dar um fim em minha tristeza.
Porque não acreditava em nada, nenhum princípio ou valor.
E todo mundo parecia ter um desenho de giz em suas paredes que servia de conforto, uma saída.
Menos eu, que não acreditava.
Então, certa vez fui me ter com um grupo de pessoas estranhas que desenharam um quadrado no chão dividido em quatro partes iguais.
E essas pessoas estranhas estavam em cima dos quadrados, cada uma delas em uma extremidade.
Elas brigavam em voz alta entre elas e dava para ouvir de longe.
— O que vocês estão fazendo? — perguntei.
— Não está vendo que estamos discutindo? — disse os quatro em uníssono, embora as vozes fossem muito diferentes umas das outras.
— Discutindo o quê?
— Discutindo quem tem razão!
— Razão em quê?
— Razão em estar parado no lado certo!
— Ah! Entendo! — E de fato estava óbvio. — Tenho algo parecido também: Quando vou dormir, procuro a posição que seja confortável para mim. Meu pai e minha mãe dorme de um jeito diferente do meu, mas não vejo motivo de me discutir sobre a posição que o outro dorme. Se está bom para eles, então não faz diferença para mim.
— Mas faz toda diferença aqui! Saber quem está na posição correta irá mudar o mundo inteiro! E as pessoas não vão mais precisar ficar nesse lugar! Vão achar uma saída.
Então me surpreendi, uma saída era justo o que queria. E quem diria que conseguiria isso apenas por ficar parado em um quadrado e discutir com os outros?
E por mais que achasse aquilo tão relevante quanto achar uma posição favorita para dormir, entrei no quadrado e fiquei exatamente no meio.
Ali pude analisar os quatro lados para procurar o melhor, porém mesmo assim não pude de os encarar do jeito que eles realmente eram: lados.
— Venha para cá! Não é bom que fique no meio!
— E por que não?
— Porque isso o torna indeciso. Ao escolher um lado você pode batalhar por ele!
Então olhei para os quatro cantos, e tudo que consegui notar neles é que: Todas as pessoas mais afastados do centro tinham ideias que não passavam de ideias. Utopias e distopias.
Por um momento eu ri, pois ali do meio, de cima do muro, encarei cada um daqueles semelhantes como crianças e eu como um adulto que sabia das coisas.
Então fiquei triste, pois notei que isso não passava de um tremendo egoísmo da minha parte.
Aquelas pessoas batalhavam tão intensamente pelos seus lados feitos de giz que chegava a ser ridículo, mas ao menos era honroso.
Eles acreditavam em contos de fadas que nunca iriam acontecer, mas ao menos elas acreditavam em algo.
Eles acreditavam que achariam uma saída sobre um desenho feito de giz, e por mais idiota que fosse a ideia, era inegável que sentiam uma paixão ardente por seus lados.
Essa energia eu não tinha. Então não poderia ser melhor que eles, poderia?
De fato, julguei que estar no centro não era a melhor coisa do mundo, então teria de ir para um lado.
Mas antes eu precisava saber…
— E quem tem razão?
— Eu!
E foi aí que notei: Não me sentiria confortável em nenhum daqueles lados. Pois eram apenas… lados, para mim.
Por que escolher um lado do quadrado se não vou ter essa paixão ardente por ele?
E me senti mal por não ter gasto meu giz em nada com significado. E por acreditar que nada que fizesse teria real significado.
E me senti esperto, mais que os outros, pois nunca acreditaria que um desenho de giz fosse uma saída de verdade.
E me senti muito triste por pensar dessa maneira. Pois esse egoísmo da minha parte me mostrou uma grande presunção.
Então sai do meio da linha acompanhado de vaias e xingamentos, enquanto pensava no que eu deveria batalhar.
Então quis me matar de novo.
Porque não tinha nenhuma causa para batalhar, nenhum ideal a defender, nada a fazer que me desse senso de propósito.
— Ser alguém é ter futuro — diziam. — Ter futuro é ter uma vida boa, uma família boa e por aí vai.
— E como eu consigo isso?
— Estude e ganhe dinheiro. Muito dinheiro!
Em um mundo onde todos tinham um giz e uma capacidade para pintar as paredes com desenhos que só elas viam real significado, não era impressionante que uma nota feita de papel valesse algo.
E pelo visto, quem tinha o suficiente, não muito e nem pouco, era o mais bem-visto de todos.
— Mas eu só posso ser alguém se tiver tudo isso?
— Sim! Porque ao ter muitas coisas você é alguém.
— Mas de que adianta ter muitas coisas se todos morrem sem levar nada?
— Ora! Você não vai trabalhar a sua vida inteira apenas para você, vai fazer pela sua família também.
— E o que isso significa?
— Significa que quando morrer suas coisas vão para sua família.
— E por que disto? Eles não trabalharam como eu para ter as minhas coisas.
— Porque isso é nobre. Sua família ficará muito grata, e irão continuar o legado de onde você parou.
— Mas eu não sei se meu filho conseguirá continuar os meus projetos. Eu não sei se ele será um ótimo administrador, nem se ele será mal. E se ele for mal, de que adiantou deixar minhas coisas para ele, apenas para estragar no final?
— Bom, se ele estragar suas coisas é porque você não o educou bem.
— Mas mesmo que o eduque bem, e que ele seja um excelente administrador, o que me garante que o filho dele não será ruim? E o que me garante que o filho deste não será ruim também? Ou sabe-se lá do filho do outro?
— Não é questão de garantias. É de humanidade. Se morrer e deixar sua família sem nada, você estará sendo egoísta.
— E passando meu legado para meus filhos estarei sendo vaidoso. Já fui embora, por que continuar tentando deixar uma marca no mundo?
— Para não ser esquecido.
— E que diferença faz ser lembrado? Estarei morto e não vou desfrutar nenhuma dessas coisas. Estarei morto e continuarei assim até a eternidade. E entre minha morte e a eternidade, um dia minha vida será esquecida cedo ou tarde. Então por qual motivo devo desacelerar o inevitável?
— Não é ruim pensar que sua vida não teve significado algum?
— Sim. Mas isso é vaidade.
E não discuti mais nada. Fiquei refletindo sobre o que conversei.
Pelo visto as pessoas acham grande coisa batalhar a vida inteira para no fim conseguir algo que só tem valor a elas, e morrer sem levar nada disso.
Vaidade, pensei. Isso não passa de vaidade.
Mas fiquei triste por não batalhar por nada.
As pessoas ao menos se sentem felizes ao pensar que o que fazem é grande coisa. Que o que fazem tem valor real, mesmo que não tenha valor exceto para ela ou um grupo de pessoas.
Que diferença faz eu desenhar um círculo em minha parente para uma criança faminta? E que diferença faz para mim o homem que alimentou a criança?
Posso sentir felicidade, ou raiva, mas nenhum tocou na bolha do outro. Então que diferença real e mundial faria qualquer um destes, incluindo a mim?
E o que significa real diferença?
Pois desenhar um círculo com meu giz pode fazer muita diferença a alguém. Mas que diferença isso faz? E que diferença faz se faz ou não diferença? E quem determina se algo faz ou não faz diferença?
Então fiquei triste por não chegar a uma conclusão, pois não consigo nem batalhar pelas minhas próprias ideias. Tão pouco batalhar pelo que as pessoas batalham.
Assim como todos os outros, essas pessoas não estão achando portas de verdade para sair desse mundo escuro.
Elas estão fazendo a própria saída, feita de giz. O giz que todo mundo nasce com.
Não é uma saída de verdade, mas quando vejo alguns encarando seus desenhos com tanta felicidade quanto se fosse mesmo uma saída real, fico triste.
Triste em saber que não consigo encarar um desenho feito a giz como uma saída real.
E fico mais triste quando penso que o tolo sou eu por julgar que os outros são tolos. E que na verdade os outros são muito mais espertos que eu.
Eles têm uma saída, por mais imaginária que seja. E eu não tenho nada além de meu giz.
Por isso não quero me matar.
Certa vez fui ao enterro de alguém desconhecido.
O caixão descia o solo negro enquanto os parentes em volta se desfaziam em lágrimas.
Então, por uma fração de segundos, me imaginei dentro daquele caixão e aqueles que choravam sendo minha família.
E por uma fração ínfima de tempo, senti uma alegria imensa, que subia pelo meu umbigo como um redemoinho.
Então, na terceira fração, notei que meu desejo de morrer não passava de um desejo de chamar a atenção.
Mas não entenda mal, era o desejo de chamar a atenção de quem mais amo no mundo para pedir ajuda.
Uma forma desesperada de dizer: Eu não estou bem. Me ajuda, por favor. Me dá um abraço. Para te falar por um momento, e me dá um abraço em silêncio.
Era isso que queria.
Um abraço.
Uma forma de carinho silencioso que vale mais que um texto gigante.
Um leve abraço.
Que a pessoa ficasse quieta enquanto eu desabafasse e chorasse, dizendo o quão sem saída eu me encontrava.
E mais um abraço.
Foi naquele enterro que descobri que tudo que queria era alguém me abraçando e perguntando com sinceridade: Você está bem?
Mas vi o quão irreal isso era. Primeiro porque ninguém me perguntaria isso, e segundo que, caso perguntassem, tenho certeza que tentaria esconder minhas emoções e tudo que penso deles. E assim, não receberia meu abraço.
Nunca imaginei que um abraço teria tanto significado, que fizesse tanta diferença.
Às vezes fiquei triste por não aceitar ajuda e nem recorrer a ela. E quando ela vinha, muitas vezes me desfiz por medo de acharem que tenho alguma deficiência.
Afinal de contas, achava ser o único em meu mundo que não tinha uma saída feita de giz.
O único que não era bom em relacionamentos, pois os achava vãos e complicados.
O único que não tinha uma mentalidade saudável e sã, pois não via motivo para mudar.
O único que não tinha nenhuma causa, ou lado para lutar, pois nenhuma delas me parecia real.
O único que parecia não ter nada pelo que batalhar, pois não via honra em morrer por aquilo.
E pensar que era O Único me deixava triste, pois certamente não era. Era puro egoísmo pensar que os problemas do mundo se resumiam a mim.
Então, eu me aproximei da minha parede.
Eu realmente não quero me matar.
E coloquei o giz sobre ela.
Não de verdade. Tenho muito o que fazer ainda.
E fiz uma linha curva.
Quero achar um jeito de sair daqui.
E formei um arco inteiro.
Mas para isso preciso achar alguém que me ajude. Ou talvez dê um abraço.
E por fim desenhei uma bolinha, que era para ser uma maçaneta.
Fiz uma porta bem feia. Tentei melhorar com algumas decorações aqui e ali, mas não parecia endireitar.
É. Não é a melhor porta do mundo. Mas já é alguma coisa.
Então virei as costas e sai pelo corredor, para explorar.
Pois, por mais que não encare aquela porta como uma saída de verdade, não posso deixar de admitir que… descobrir mais sobre o mundo me faz ter bons relacionamentos, melhorar o meu jeito de ser, conhecer novas crenças e aprender com elas, e, principalmente, me tornar alguém. Alguém para ser chamado de alguém.
É… quem sabe eu não ache uma saída vendo as saídas dos outros.
Uma maçaneta de um, as dobradiças de outro… e assim posso ter ideia de como quero que minha porta seja.
Ou quem sabe eu consiga melhor:
Um abraço!
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