Quatro meninos fugiram de uma prisão, mas eles enfrentam um problema ainda maior na floresta.



Listras Preto e Branco

No meio de um verde agressivo; o ruído das árvores e a grama alta que dançava — listras preto e branco se contrastavam com aquele ambiente. 


Os animais fugiram das listras há muito tempo, tamanho era a discrepância que aquilo fazia. Mas alguns outros possuidores de intensa coragem, e um tanto descuidados, ficaram para descobrir o que, afinal, eram aquelas curiosas listras.


Decerto conheceram muito bem. Eram aqueles outros seres  grandes, que andavam em duas pernas e saiam por vezes para los caçar e devorar. Por isso, os últimos corajosos animais correram disparados dali.


Sendo apenas vigiados pelas árvores, pelas plantas e por animais de sangue-frio, eles permaneceram em intenso silêncio — com exceção dos barulhos de seus próprios.


No entanto, se observados mais de perto, constatariam que aqueles homens, na verdade, não passavam de crianças. Estavam descalças e a única coisa que usavam era uma camiseta de manga longa e calças de listras preto e branco. Não estavam desarmados, carregavam consigo um imenso facão.


— Não aguento mais isso — disse Pedro aborrecido, um garoto de cabelos castanhos e de olhos tão verdes quanto a folha mais clara dali. — Será que falta muito para chegarmos em algum lugar? Eu tô doido para me secar.


De fato, os quatro frágeis garotos estavam ensopados. Não seria difícil deduzir que se atiraram nas águas correntes ali perto.


— Não enche, Pedro — disse Nando, um pirralho um tanto fino e comprido e de aspecto impaciente. — Você quer que brote do chão uma cabana com toalhas quentes, uma mesa redonda e um bolo nessa floresta idiota?


— Não — respondeu com o rosto ficando vermelho. — Não é nada disso. 


Mas Pedro ficou tão encabulado de ter falado aquilo, que andou encarando o chão e tentava se aquecer esfregando as mãos pelos braços. 


— Ah! Venha cá, Pedro — disse Júlio, que de todos os quatro, era definitivamente o maior e mais forte.


Ele passou um dos braços por trás do amigo e andou com ele daquele jeito, um abraço um tanto desengonçado. Como era Júlio que carregava a grande lâmina, não pôde usar a outra mão para dar um abraço completo no amigo. 


Pedro não se sentiria confortável se fosse o caso, pois começou a sentir mais frio por estar colado com outra pessoa tão molhada quanto ele. Mesmo assim, os olhos verdes do rapaz se fecharam ao esboçar um sorriso torto, meio forçado.


— Não liga para o que esse idiota diz — continuou, dando tapinhas e um beijo na cabeça castanha do amigo.


— Idiota é você, Júlio! — grasnou Nando. Sua careta zangada e vermelha escondia os olhinhos negros e aguados.


— Não! — O grandalhão soltou Pedro finalmente e o peitou. — Você é o idiota aqui! Não tem um pingo de consideração pelos seus amigos, não?!


— Como é que é…?


Quando Nando já ameaçava pular em cima de Júlio, um outro garoto, este menor do que todos os quatro, interrompeu com voz calma: 


— Gostaria de informar que o barulho talvez atraia os Corporativistas. — Quando disse isso, na realidade, quando disse especificamente Corporativistas, os que brigavam imediatamente voltaram sua atenção para eles com os rostos lívidos de espanto. Pareciam que viram uma assombração. — Se o Pedro está se sentindo desconfortável com o frio, acho melhor pararmos para ele torcer as roupas.


Aquele era Ygor, um menino de rosto amarelo e cabelos negros e ralos. Além de sua pequena altura, usava um óculos fundo-de-garrafa remendado no meio.


— Tá doido? — exclamou Nando. — Se a gente parar de andar eles vão nos encontrar. E aí já era. 


— Concordo com o Ygor — disse Júlio, com nitida satisfação de concordarem com ele, e de contrariar o amigo irritado. — Acho que o Pedro tem que secar logo essas roupas, e rápido.


— E depois a gente ser preso? Nem vem! Nenhum friozinho vai fazer a gente voltar para aquele lugar.


— Improvável — interrompeu Ygor, ainda calmo. — Graças a você ter nos atirado da cachoeira, Nando, ganhamos um bom tempo de vantagem com relação aos Corporativistas. 


— Não diga esse nome! — exclamou Nando, mas não tão irritado quanto antes. Pelo visto gostou do leve elogio, ou assim pensou que fosse um elogio.


— Então temos tempo suficiente — comemorou Júlio. — Nesse caso, vamos todos secar as nossas roupas. 


E andaram até uma pedra ali perto e começaram a tirar as vestes e a torcer; até mesmo Nando o fez enquanto reclamava baixinho. 


Entretanto, Pedro não moveu um músculo para tirar a água de suas vestes. 


— O que foi, Pedro? — resmungou Nando, já pondo as calças úmidas mais uma vez. — Tá perdendo tempo por quê?


— E-eu… — começou nervoso, o rosto meio aborrecido, meio envergonhado. — Eu não vou me trocar na frente de vocês! 


Ouviu-se um grande: Ah! Pelo amor de Deus! Vindo de Nando. Ygor pediu educadamente para fazer silêncio e em troca recebeu um gesto obsceno. Então Nando pegou o amigo ferozmente pelo braço e o levou até atrás de uma grande árvore ara se trocar.


— Satisfeito agora? — Voltou bufando para onde estavam os amigos, de modo a contorcer mais um pouco a sua camiseta.


Com um pouco de reconfortante privacidade, o garoto de olhos claros tirou suas vestes e começou a torcer. Se sentiu muito desapontado ao perceber que não tinha tanta força quanto Júlio. Achou que o amigo forte e grandalhão poderia lhe ajudar nessa tarefa. 


Quando viu que não tinha mais força para espremer sua camiseta, a colocou de volta no corpo o mais veloz que pôde, preocupado que alguém caçoasse de seu corpo muito branco. Pôs o máximo de força que conseguia para torcer o resto de suas vestes. Achou melhor pedir ajuda de Júlio para fazer o restante do serviço para si.


— Já terminou aí? — Era a voz de Nando. 


— Quase! 


E ouviu-se mais uma bufada irritada vindo de trás da árvore. 


Mais apressado e decidido a não pedir ajuda alguma, Pedro começou a se vestir. Mas uma coisa que ele não notara foi que a água que batia no chão fazia um barulho engraçado, que chamou a atenção de uma criatura curiosa.


Com listras preto e branco pelo corpo, alongado como um verme e do comprimento da perna de Júlio, a criatura rastejou sob uma folha larga no chão, a poucos centímetros do garoto. 


Pedro viu de canto de olho a criatura, e devido a sua cor pensou que fosse alguma veste sua que deixara cair. Assim que colocou a planta para o lado, soltou um grito.


— O que foi?!


Nando correu em direção ao amigo e o viu caído tentando se livrar da criatura roscada em sua perna, que decididamente estava com as presas enfincadas na panturrilha do garoto.


— Larga! Me larga dela! Faz ela me soltar!


Nando a agarrou pela cabeça que lembrava um dragão e a jogou longe. Depois se ajoelhou e virou para o amigo. 


— Você está bem? — Estava com os olhos arregalados de espanto. 


— Ela me mordeu! — disse Pedro ao se levantar, olhava para o estrago feito pela criatura. Dois furinhos miúdos, do tamanho de quase nada, em sua panturrilha. 


— O que aconteceu? — Chegou Júlio, com uma expressão de assombro. Ygor vinha logo atrás dele.


— Um bicho mordeu ele! Parecia um dragão misturado com um verme. Não tinha olhos, só uma boca com duas presas afiadas. 


— Deixem ele sentado naquela pedra — ordenou Ygor. Sua voz aumentou um tom.


Júlio carregou Pedro, que dizia o tempo todo que estava bem e poderia muito bem, obrigado, andar sozinho. Estava muito envergonhado de seus amigos o cuidarem, principalmente sem calças.


— Você viu a espécie? — perguntou Ygor a Nando.


— Sim! Eu vi! E já falei para você até a aparência dela! 


— Seus dados são insuficientes para elaborar uma resposta significativa. Preciso saber o tamanho em centímetros e se havia veneno em sua boca.


— Veneno? — Pedro que agora se encontrava sentado na pedra soltou uma exclamação de terror. — Ela tinha veneno? 


— Depende da espécime…


— Rápido, Nando! — interrompeu Júlio. — Chupa a ferida dele! 


Nando fez uma cara de profunda indignação e com o dedo indicador no peito disse: — Eu não vou engolir veneno! Você enlouqueceu? 


— Veneno? — perguntou Pedro mais uma vez, trêmulo.


Ygor tentou falar de novo, porém Júlio interrompeu: 


— Você não vai engolir, idiota. É só cuspir depois! 


Então assim fez Nando, um tanto a contra gosto. Se agachou, puxou a perna do garoto e pôs a boca sobre a ferida.


— Não tá saindo nada! — exclamou o pirralho, tentando de todas as formas se livrar daquela incumbência desconfortável.


— Faz de novo até sair alguma coisa! — disse Júlio, desesperado. 


Nando voltou sua boca à ferida, mas nem sangue havia saído.


— Não — Nando se levantou rápido, desejando não ter feito nada daquilo — nada.


— Será se já cicatrizou? — perguntou Pedro com a voz fraca, tentando segurar a vontade de cair no choro.


— Pessoal! — Ygor levantou a voz, e quando todos olharam viram que ele vinha trazendo a calça de Pedro. — Usem isso para estancar o sangue e impedir que o veneno se espalhe mais rápido.


Então ele rasgou a calças em uma tira e deu para Júlio. Ygor talvez tenha percebido a decepção no olhar do amigo envenenado, pois acrescentou: 


— Não se preocupe, estou apenas tentando atrasar seu possível envenenamento. — Por algum motivo aquilo não consolou Pedro em nada.


O grandalhão amarrou a tira acima do joelho do garoto, mas não pareceu suficientemente amarrado para Nando, que empurrou Júlio para o lado e apertou com mais força. Pedro deu um gemido de dor, mal sentia sua perna.


— Nando, rápido. Os detalhes. 


— Sei lá qual era o tamanho, Ygor! Eu não me preocupei em ver aquela porcaria. Tava tentando salvar o Pedro!


— Certo. — Ygor, com um quê leve de impaciência, fechou o corpo e os olhos enquanto resmungava: — Cabeça de um dragão e não parecia ter olhos... O que significa que se movia por vibração… A depender do planeta...


— De que serve saber disso? — indagou Júlio que não sabia se ficava irritado ou desesperado. 


— A cor! — disse Ygor como se tivesse descoberto a eletricidade. — Preciso saber a cor para ter uma ideia exata se era venenosa, e se for, quanto tempo temos para preparar um antídoto. 


— Era… Preto com Branco — disse Nando, um pouco inseguro. — Parecia com nossa roupa, eu acho. Mas era isso. 


— Certo — disse Ygor, que parecia fazer um grande esforço para pensar enquanto ajeitava os óculos enfurecidamente. — A última parte do corpo era branco ou preta? 


— Tenho cara de ter memória fotográfica?


— Se a ponta for preta, não temos do que nos preocupar. Essa espécie não tem veneno. Mas se era branca significa ser uma Sora 67UD, venenosa. — Ele pôs às duas mãos no ombro do amigo e o sacudiu de um jeito muito travado. — Tente se lembrar, Nando. 


Nando se emburrou e empurrou os braços do amigo para o lado. Andou um pouco para frente enquanto se esforçava para pensar. Dava para ver pensar, pois fazia uma careta. Pedro o encarava com lágrimas nos olhos, como se implorasse para que o amigo se lembrasse, e que por favor fosse preta.


— Era… — Ele hesitou por um instante, mas por fim disse com pesar. — Era branca.


Se fez silêncio por um tempo, e todos olharam para Ygor. Ele disse em voz alta: — Sora 67UD. São 15 minutos até o veneno mata-lo.


Júlio pôs as mãos na cabeça e virou de costas, o olhar no chão enquanto xingava e chutava o nada. Ygor voltou a fechar o corpo e os olhos para pensar, suas sobrancelhas tensionadas. Pedro mordeu os lábios enquanto segurava as lágrimas. 


— DROGA! — exclamou Nando. — O que a gente vai fazer agora? Voltar para aquele lugar e pedir ajuda?


— Não! — disse Júlio, irritado. — Não quero voltar para aquele lugar de novo. Foi tão difícil sair de lá…


— Podemos sair mais uma vez! — disse Nando, que a essa altura não falava coisa com coisa. Júlio desistiu de discutir e foi para longe, a pensar. Quem entrou na discussão foi Ygor. 


— Improvável. Eles vão nos colocar em uma cela especial e será mais difícil de sair. Lembre-se que só conseguimos nossa liberdade por conta de sorte e um plano bem elaborado.


— Argh! — Nando chutou o nada, pois sabia que aquilo era verdade. — Acabamos de ganhar a liberdade, mas já vamos morrer no meio do mato! 


— Nós não — corrigiu Ygor. — O Pedro vai. 


Nando parou de repente. Então se aproximou de Ygor com os olhos cerrados, como se fosse um leão vendo sua presa. — O que você está querendo insinuar, sua aberração? Vai abandonar o Pedro aqui, é isso?


Ygor não pareceu se importar com o insulto. Ele deixou de cruzar os braços para concluir: 


— Nosso grupo tem maior probabilidade de sobrevivência se o deixarmos para trás. Isso é um fato. — Ouviu-se Pedro soltar um leve guincho contido de desespero. — Fazer um antídoto antes do tempo se concluir é impraticável. Isto é, sem pé nem cabeça.


— Agora você está falando merda! — retrucou Nando, dando um empurrão no peito de Ygor, quase o derrubando. 


— Pessoal — chamou Júlio ao fundo. 


Ygor se levantou depressa e respondeu, ainda com a voz calma: — Por falando merda, se refere a ilógico. Mas como bem sabe, por definição, eu não posso ser ilógico. 


— Você é louco, isso sim! 


— Pessoal! — gritou Júlio ao fundo, mais uma vez.


— A loucura, ou insanidade, é uma disfunção neurológica. — Ygor encarou Nando sem medo por trás dos óculos. — Eu não sofro de tais fraquezas orgânicas.


— PESSOAL! — Dessa vez Júlio foi ouvido, e quando Ygor e Nando o olharam, viram que ele estava voltando com o facão erguido na mão, e falou baixinho: — Tive uma ideia.


Nando arregalou os olhos e abriu a boca levemente. Pedro notou que o colega ficou branco, mas não conseguiu ver o que era, pois Júlio estava fora de seu campo de visão. 


— Não! — exclamou Nando. — Nós não vamos fazer isso! 


— O quê? — perguntou Pedro, já um tanto desesperado com o que quer que fosse.


O grandalhão pôs o dedo indicador na boca para pedir silêncio, mas o pirralho irritado resolveu responder com sarcasmo.


— Nada não, Pedro! Exceto pelo fato de que nosso amigo Júlio aqui, quer arrancar sua maldita perna com um facão! 


— Não! — gritou Pedro, que imediatamente se levantou e tentou correr para longe. Não aguentou o aperto na perna e caiu, tendo de se arrastar pelo chão de maneira humilhante. — Não...! Não…! Não…!


O grandalhão chegou mais perto e trouxe consigo a arma com uma expressão no rosto que se perdia entre assustado e irritado. Ygor se aproximou dele, impaciente.


— O que pensa que está fazendo? — perguntou. — Cortar a perna dele sem anestesia vai o matar de dor ou de perda de sangue. A hipótese de sobrevivência é mínima.


— É o mínimo ou deixar ele morrer! — gritou Júlio com o facão a mão. — Acabamos de sair da cadeia nessa merda de planeta, não tem nenhuma base dos rebeldes por aqui que a gente saiba, e nem sabemos se estamos indo para algum lugar que tenha gente! 


— Correto, por isso disse que a sobrevivência dele é mínima. E acrescento que, caso você corte a perna dele com esta lamina, as chances dele diminuirão de miníma para uma mera hipótese. Por isso digo para deixá-lo morrer pelo veneno.


Nando, que já estava irritado, ao ouvir isso ficou completamente vermelho. Tremia de raiva enquanto babava ao gritar para o amigo: 


— Como você pode falar uma merda dessa...? Vai deixar ele morrer…? Tem que ter uma saída…!


E depois disso, Nando saiu do meio dos amigos, tão irritado que chutava e pisava forte em todo chão que encontrava a sua frente.


Júlio, que estava se tremendo de raiva e desespero, começou a discutir com Ygor: — Essa é nossa única opção! — Apontou o facão na mão. — Se não, ele vai morrer por culpa nossa! 


— A culpa seria nossa se cortarmos a perna dele — disse Ygor enfaticamente. — Se ele morrer agora, a culpa é da natureza. O que em minha opinião seria considerado uma forma nobre de morrer.


Os dois permaneceram numa intensa discussão, enquanto Pedro ali perto, sentado ao chão e com o rosto banhado em lágrimas, tampava os ouvidos, os lábios comprimidos, e soluçava baixinho. 


Pedro começou a sentir uma imensa dó de si mesmo. Preso ainda criança por ter pais Rebeldes, penar por intensos anos para conseguir fugir da prisão, e, quando finalmente teve a liberdade, uma criatura no meio da floresta o mataria.


O grandalhão deu um empurrão no peito do mais baixinho. — Não fala como se entendesse alguma coisa! Você só tem oito anos de vida! 


— Dez…!


— Gente! — Chegou Nando, separando a briga que havia começado. Parecia menos irritado e com a cabeça mais fresca, embora fingisse que ninguém notava sua tremedeira nervosa. — Essa decisão não é nossa! — Então todos se viraram para o amigo, que estava por ali perto escondido atrás de algumas plantas. — Pedro…


Ele ouviu. Ainda soluçava baixinho enquanto pensava nas opções. Era ter a perna cortada e uma hipótese a mais de viver, ou esperar seus minutos restantes acabarem e morrer com honra; fosse lá o que isso quisesse dizer. 


Ele limpou as lágrimas, mas elas continuaram descendo, principalmente quando pensou na dor que sentiria quando o cortassem a perna fora. Mas tinha de decidir.


Olhou para frente, seus amigos foram para perto dele, o encarar nos olhos. Pedro, ficando menos vermelho e choroso, encarou os três com uma expressão decidida e deu a resposta: 


— E-eu vou. — Como não houve uma resposta imediata dos amigos, disse mais uma vez, com mais determinação: — Podem cortar. Eu quero viver.


E todos se aprontaram rapidamente, pois o tempo corria. Puseram o rapaz sobre uma das pedras ali perto e estenderam sua perna amarrada, de modo que o dedão do pé apontava para o céu. 


Ygor se sentou próximo ao pé, segurando o calcanhar com firmeza. Nando ficou logo atrás do seu amigo, o prendendo com um abraço que imobilizaria seu torso. Júlio se preparava para dar os golpes. 


— Quanto tempo falta? — perguntou o grandalhão, visivelmente nervoso. 


— Dois minutos — disse Ygor, ainda concentrado em prender com firmeza a perna de Pedro. 


— Certo… 


Júlio começou a mirar o golpe, seria logo acima da mordida, no meio do caminho entre a rótula e o tornozelo. 


— Vai um pouco mais para cima — aconselhou Nando, que via toda a preparação do amigo. — Só para garantir.


Júlio engoliu em seco. Dessa vez posicionou a lâmina negra poucos centímetros abaixo do joelho. Deu uma olhada apreensiva para Nando em busca de aprovação. O amigo balançou a cabeça. 


O grandalhão respirou fundo e começou a subir o facão para cima da cabeça. Enquanto o fazia, reparava atentamente no seu alvo. Cortaria a perna de seu amigo sem anestesia. Precisaria de vários golpes.


Então abaixando a lâmina ele perguntou a todos presentes: — Não é melhor quebrar o osso…? — Suas palavras eram fracas e sem fôlego. Pareciam assopros. 


— Quê? — perguntou Pedro, que na expectativa começou a ficar furioso de não terminarem logo com aquilo. — Não! Não precisa. Corta logo! 


Júlio então parecia decidido. Respirou fundo e olhou mais uma vez para o alvo. Estava torcendo para que não precisasse de mais de um golpe para cortar aquilo. Mas se não fosse um, que fosse ao menos dois. Ou três, no máximo. 


Levantou a arma por cima da cabeça. Pedro olhou para o lado oposto, de olhos fechados. E então esperou a dor vir. Apertou os lábios o máximo que podia, até que… 


— Abra os olhos — disse Ygor. Pedro abriu e olhou para ele, mas o amigo não olhava para si, e sim para Júlio.


— Quê? — perguntou Júlio, que parecia cansado e sem fôlego. A arma por cima da cabeça. Apenas um dos olhos abertos.


— Abra os olhos — repetiu Ygor. — Como vai acertar o alvo se permanecer de olhos fechados?


Pedro olhou para o amigo grandalhão, um pouco indignado com a situação. Seu tempo estava se esvaindo. Júlio deu um grande suspiro e soltou a arma no chão. 


— Eu não consigo — disse como se pedisse desculpas. Quase um choro. 


— Como é? — Nando se levantou e foi para cima de Júlio, impaciente. — Júlio, a gente não pode deixar o Pedro morrer! Você tem que fazer isso! Eu conheço o Pedro desde os quatro anos. Não posso perder ele aqui! Não posso perder nenhum de vocês aqui. 


Júlio olhou para o amigo irritado a sua frente cheio de pesar. Então se abaixou, pegou a arma, e empurrou para o peito de Nando. 


— Então faça você. 


Nando pegou a lâmina sem jeito, como se tivesse tomado um soco no queixo que o deixou atordoado. Meio tonto, ele se virou para Pedro. Júlio estava atrás dele, colocando uma mordaça feita de uma tira de sua camisa em sua boca. 


— Morde isso — disse o grandalhão. Pedro o fez enquanto observava Nando se aproximar com os olhos sem brilho. — Pronto, Nando. 


Seguro em volta de um abraço apertado e caloroso de Júlio, Pedro não teve dúvidas que agora não poderia ir a lugar algum. O grandalhão não o deixaria se mover pondo toda aquela força sobre seus braços e corpo. Sua perna também parecia bem imóvel graças a Ygor.


Nando mirou o corte, um pouco abaixo da rótula. Respirou fundo e colocou o facão subitamente acima da cabeça, carregando todo embalo possível para cortar a perna do amigo. 


Pedro imediatamente virou o rosto para o lado oposto, os olhos bem apertados. Seu coração ribombava tão forte que chegava a doer. Mesmo assim ele não se mexia e nem gritava, aguentaria a dor que fosse, até que ouviu um barulho vindo das folhas a sua frente. 


Ele abriu os olhos rápido para ver. Era a criatura que o mordera, cabeça de dragão e corpo listrado de preto e branco como suas vestes. E quando subitamente a criatura rastejou para longe, Pedro viu que a ponta de sua cauda era preta.


“Se a ponta for preta tudo bem, mas se for branca não é venenosa”, lembrou-se do que disse Ygor.  


Não era venenosa! Nando se enganou! Pedro soltou gritos que eram abafados por sua mordaça enquanto tentava se livrar de qualquer jeito dos agarrões dos amigos. Queria alertar.


Virou para tentar fazer algum gesto. 


Mas Nando desferiu o primeiro golpe, que começou a cortar o osso do rapaz, fazendo um barulho como se cortasse uma árvore. Pedro gritava e se balançava. Então veio o segundo golpe que fez um barulho mais grotesco ainda. O terceiro. O quarto golpe.


A dor era lancinante. Nando continuou dando inúmeros outros golpes enquanto Pedro se balançava se contorcia para o tentar fazer parar. Gritava desesperadamente, urrando.


Comentários